Onde estava Deus naquele dia?

Deus castigou-nos? Os deuses abandonaram-nos? O karma negativo das nossas vidas é demasiado forte? O fim dos tempos está próximo?

O maremoto matou pessoas de todas as grandes religiões mundiais. E, por todo o mundo, os crentes interrogam-se sobre como é possível uma tragédia destas dimensões, atingindo indiscriminadamente pessoas com fé e sem fé, supostos pecadores e supostos inocentes, cristãos, hindus, muçulmanos, budistas, judeus.

Num artigo publicado no "Sunday Telegraph", o arcebispo de Cantuária, Rowan Williams, considera inevitável que os fiéis se interroguem sobre a sua fé. Mas pergunta: "Se algum génio religioso surgir com uma explicação de porque é que estas mortes fazem sentido, sentir-nos-iamos mais felizes, mais seguros ou com mais confiança em Deus?".


HINDUS O KARMA NEGATIVO

Para os hindus, a explicação possível para os resultados, em custos humanos, de catástrofes em massa tem a ver com o karma colectivo, diz Ashok Hansraj, relações públicas da Comunidade Hindu de Portugal. Um acidente deste tipo não é uma condenação. E se, entre os muitos que se encontravam no local da tragédia, houve alguns que morreram e outros que se salvaram isso deve-se ao karma de cada um - as vítimas mortais "não tinham acumulado energia suficiente para poderem ser salvas".

O karma, o acumular dos efeitos de cada uma das nossas acções, pode ser positivo ou negativo. E por vezes uma pessoa pode ter uma carga (positiva ou negativa) tão elevada que quando morre a carrega para a outra vida ao reencarnar. Isto explica que entre duas pessoas que nasçam e vivam em condições muito semelhantes uma possa ter muita sorte e outra não - é que, independentemente das acções nesta vida, carregam a carga da vida anterior. Não é, contudo, uma fatalidade, afirma Hansraj, porque alguém pode nascer com um "saldo negativo" e, pelas suas acções benevolentes (em relação à Humanidade e à Natureza), transformá-lo em positivo.

O mundo é feito destas cargas positivas e negativas, e nos locais onde se dão tragédias o peso das cargas negativas é extremamente elevado. Mas há outro factor que, para os hindus, é muito significativo. "As nossas escrituras antigas, reveladas cinco ou seis mil anos antes de Cristo", explica Hansraj, "falam de um momento, que coincide com o nosso milénio, no qual o peso das cargas negativas na Terra será tão elevado que a própria Terra deixará de ter o seu comportamento normal e haverá muitas intempéries e catástrofes naturais".

Apesar de nas condições criadas após o tsunami isso ser muito difícil, para os hindus é muito importante a cremação do corpo depois da morte, para libertar a alma. Só assim esta poderá ser julgada e se poderá avaliar a sua carga negativa ou positiva.


MUÇULMANOS O AVISO DO FIM DOS TEMPOS

Deus examina-nos constantemente, diz um dos versículos do Corão. Por isso, xeque Munir, imã da Mesquita Central de Lisboa, acredita que uma tragédia como a que vários países da Ásia estão a atravessar, e que vitimou muitos muçulmanos, é um teste de fé. O que o Islão aconselha aos que passam por uma calamidade como esta é a serem pacientes - "sem dúvida que viemos de Deus e é para Ele o nosso regresso".

Se para os muçulmanos tudo depende da vontade de Deus e muitas vezes os caminhos de Alá são impenetráveis, o crente tem que aceitar o que lhe acontece e mostrar que a sua fé é suficientemente forte para resistir a estes testes divinos.

O xeque afasta, contudo, a hipótese de o maremoto ser um castigo. É antes, na sua interpretação, um sinal de Deus. Sinais que, de acordo com o Corão, vão anunciar o fim do mundo. Quando este começar a aproximar-se haverá constantemente sismos, avisa o livro sagrado dos muçulmanos. Por isso, para o imã da Mesquita Central, perante a tragédia os homens devem reflectir e compreender que está na hora de deixar as guerras e de "começar a falar com Deus".

Quanto aos muçulmanos que morreram - e foram muitos, tendo em conta que a Indonésia, o maior país muçulmano do mundo, foi o mais atingido - são considerados mártires, explica Munir, como todos os que morrem em acidentes. "Que tenham uma vida melhor no Além é o desejo de todos nós".


CRISTÃOS PROCURAR O BEM NO MEIO DO MAL

Se Deus é o criador do Mundo e cuida das suas criaturas, como é que existe o Mal? Esta é, segundo o padre José Manuel Pereira de Almeida, a questão para a qual os cristãos procuram resposta quando são confrontados com uma catástrofe.

E se para o mal moral, aquele que pode resultar das nossas acções ou inacção, pode haver explicações, o mal físico aparece sempre como um mistério. A única resposta é que "o Mundo, como o Homem, também está muito imperfeitamente construído e carece do nosso esforço para melhorar".

A lição a tirar de tragédias está, talvez, nas palavras de Santo Agostinho, que disse que Deus nunca permitiria que qualquer Mal existisse nas suas obras se não fosse para fazer sair dele o Bem.

O padre Pereira de Almeida recusa qualquer ideia de castigo ou de intencionalidade divina em relação aos que morreram - "a ideia do mal físico como um castigo aparece no Antigo Testamento, mas a partir de Jesus é tudo menos isso". Afasta também aquilo a que chama uma "perspectiva masoquista" de culto do sofrimento. Se é verdade que Jesus morreu em sofrimento - e também ele perguntou "Meu Deus, porque me abandonaste?" - o que nos mostra é que "o sofrimento pode ser vivido como redentor" e que é possível a "vida não perder o sentido no sofrimento".


BUDISTAS O RESULTADO DAS NOSSAS ACÇÕES

Muito diferente é, necessariamente, a visão dos budistas, por ser uma religião que não reconhece a existência de Deus Criador, nem a ideia de desígnio divino, que faria com que algumas pessoas estivessem naquele local naquele momento.

"Tudo no mundo é resultado da causalidade", diz Tsering Paldron, monja budista portuguesa. "Tudo são causas e consequências, que têm a ver com as nossas opções, escolhas, intenções, acções". Um budista não vê as coisas como castigos ou recompensas. "Este tipo de tragédias acontece por uma acumulação de causas e resultados" - nunca nos interrogamos sobre o impacto da nossa decisão quando cancelamos uma viagem de avião e nada acontece; mas interrogamo-nos quando esse mesmo avião cai. Tal como os hindus, os budistas acreditam no karma, que é a "conta-corrente resultante das nossas acções", mas, segundo Tsering, não se trata de uma visão fatalista da vida. "Tudo o que ainda não aconteceu não está pré-determinado. Tem probabilidade de vir a acontecer, mas é alterado pelas nossas acções, incluindo as que estão acontecer neste momento".

Após a morte a consciência não desaparece, é um fluxo contínuo que se ligará a um novo corpo - quanto tempo demorará essa reencarnação não está definido, pode acontecer mais depressa ou mais lentamente dependendo da intensidade das acções da pessoa na sua vida anterior.

In Jornal Público, 5 de Janeiro de 2005.